Matéria Nº 17 – 12/06/2026

Dentro da Umbanda e das religiões de matriz africana no Brasil, a palavra “calunga” carrega uma profunda carga sagrada e histórica. O termo é comumente desdobrado em duas expressões fundamentais: calunga pequena e calunga grande.
A calunga pequena refere-se ao cemitério físico tradicional — seja ele terrestre ou vertical —, considerado um campo santo de respeito e transição para os ancestrais.
Por outro lado, a calunga grande é o mar. Essa associação com o oceano evoca a memória traumática do tráfico tumbeiro: milhões de africanos escravizados que morreram na travessia do Atlântico foram lançados às águas, fazendo do mar um imenso cemitério ancestral.
Registros históricos apontam que os familiares que permaneciam no continente africano viam a partida dos navios em direção à “calunga grande” como uma despedida definitiva para um mar sem fim.
Para compreender a profundidade do termo, é preciso recorrer à linguística e à antropologia. A palavra tem origem no quimbundo (ka’lunga), significando “mar” ou “imensidão”.
Contudo, na cosmovisão banta ampla, Kalunga não era apenas a água, mas uma divindade ligada à criação e, simultaneamente, a linha mística que dividia o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, conceitos expressos em kikongo pelos termos vanyama e vafu. Era o espelho d’água da existência.
Nas línguas bantas, a raiz ntu (de onde vem bantu) significa, literalmente, “pessoas”, mostrando que a relação entre o ser humano, a natureza e o invisível era indissociável (não se pode separar, desligar ou desunir).
Ao desembarcar no Brasil, o conceito ressignificou-se através do sincretismo e da resistência cultural. Na chamada Umbanda popular de influência banta, Calunga passou a ser entendida tanto como uma força da natureza quanto como o campo de atuação de diversas falanges espirituais. Entidades que trabalham nesses mistérios — como certos Exus, Pombagiras e Pretos-Velhos — atuam sob a vibração e afinidade espiritual de grandes orixás, como Iemanjá (no mar) e Omulu/Obaluaê (no cemitério).
Diferente da visão judaico-cristã, a associação de Calunga com o “subsolo” ou o reino dos mortos não possui nenhuma relação com a ideia de inferno ou punição, mas sim com a sabedoria, o acolhimento e o mistério da transição espiritual, desvendando e curando as dores do cotidiano humano.
Historicamente, o termo também sofreu pressões da colonização europeia. Diante da tentativa de catequização, os negros escravizados passaram a utilizar a palavra “calunga” (no sentido de imensidão abstrata e vaga) para se referir ao Deus dos missionários católicos, cujo conceito ocidental lhes parecia distante da imanência de suas próprias divindades.
Paralelamente, houve uma bifurcação social da palavra: enquanto o termo sagrado mantinha sua força nos terreiros, a sociedade colonial passou a usar a grafia “calunga” de forma pejorativa e diminutiva para se dirigir aos negros, na tentativa de desumanizá-los.
A palavra, contudo, resistiu como sinônimo de sobrevivência e arte. No Nordeste brasileiro, por exemplo, transformou-se na boneca sagrada, símbolo que lidera os cortejos do Maracatu Nação, representando uma conexão direta com os reis e rainhas ancestrais.
Já no coração do Brasil, o termo batizou o Povo Kalunga, que hoje habita o maior território quilombola do país. Localizado na região da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, o sítio histórico abrange cerca de 260 mil hectares e abriga dezenas de comunidades. Isolados geograficamente por séculos para escapar do cativeiro, esses descendentes transformaram o próprio nome em um símbolo imortal de liberdade, território e preservação cultural.
Por fim, todo exagero de respeito é pouco para toda a história que envolve os significados da palavra Calunga.
Axé!
Fernando Dias
O conteúdo acima foi elaborado por mim,
com base em diversas fontes
pesquisadas na internet e
na minha vivência pessoal!
Como eu sempre falo:
“Obrigado Deus!”
Mas, para falar a verdade,
eu agradeço também a muitas Entidades,
da Esquerda e da Direita,
Olodumare (Olorun), Orixás,
Arcanjos, em especial São Miguel,
e aos Anjos, principalmente
aquele que me Guarda!
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